Sunday, September 14, 2008

a irrealidade e o maravilhoso em treze contos

"Então olhou para mim. Eu julgava que era a primeira vez que olhava para mim. Mas depois, quando deu a volta por detrás do castiçal de madeira e eu continuava a sentir sobre o ombro, nas minhas costas, o seu olhar fugidio e líquido, compreendi que era eu que olhava para ela pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei o fumo áspero e forte antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas de trás. Então vi-a ali, como tinha estado todas as noites, parada junto ao castiçal, olhando-me. Eu olhando para ela da cadeira, equilibrando-me numa das pernas de trás. Ela em pé, com uma mão comprida e quieta sobre o castiçal, olhando para mim. Via-lhe as pálpebras iluminadas, como todas as noites. Foi então que me lembrei do mesmo de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela disse-me, sem retirar a mão do castiçal: "Sim, nunca mais o esqueceremos". Saiu da luz, suspirando: "Olhos de cão azul". Escrevi isso por todo o lado."

Olhos de cão azul, Gabriel Garcia Márquez

a menos de 60 dias das eleições

Barak Obama disse que a América é melhor do que foi durante estes últimos oito anos. Certamente, nem que seja pelo facto de que imaginar um cenário pior do que foi a presidência Bush ser uma tarefa difícil: mal do mundo se tivermos mais quatro anos com McCain e os conservadores no poder.
Mas algumas afirmações que Obama tem feito vieram confimar ou reforçar, se assim o quiserem, o que disse há uns tempos atrás. O senhor, no seu périplo mundial, passou 45 minutos em Ramallah e 30 horas em Israel. Afirmou que Jerusalém era a Capital de Israel quando toda a gente envolvida nos inúmeros processos de paz aceita que Jerusalém terá que ser sempre uma cidade repartida. Mudanças na política externa dos EUA?
Obama defende uma diminuição do número de tropas no Iraque, mas não uma retirada completa (McCain, mais honesto, prevê a presença militar dos EUA nos próximos 50 a 100 anos!). E afirma que a nova opção estratégica é o Afeganistão, com o respectivo reforço militar.
Por isso pergunto: será que a América de Obama irá ser efectivamente melhor? Ou será simplesmente mais cor-de-rosa e cheia de discursos bonitos e despidos de conteúdo e mudança?

comer canapés como se não houvesse amanhã

A minha vida é um filme (europeu, claro): não há sítio no mundo onde vá em que não seja recebida pelo menos por uma greve (o ano passado em Roterdão foi uma mulher-bomba, caso estejam esquecidos). Desta vez foi uma quebra de electricidade que nos impediu de chegar rapidamente ao hotel. Atraso sobre atraso somado, a hora de almoço foi passada numa autoestrada de acesso a Paris. Lá chegadas, mais uma boa hora a tentar encontrar o Instituto Pasteur a tempo do registo no congresso. Se eu me consigo perder em Lisboa, a caminho de casa, melhor o faço nas ruas de Paris esganada de fome e com o meu francês limitadíssimo. A hora do lanche, infelizmente e para meu desespero, foi a outra vítima mortal do dia. Duas palestras depois bem podiam ter anunciado a descoberta da vacina contra a malária. Mal a conferência terminou corri para a mesa dos aperitivos e comi à velocidade que o bom senso e a etiqueta permitem mais de vinte capapés e mini-sandes (ou 50, não sei, estava a tentar não desmaiar de fome). Credo. Ou melhor, Nossa Senhora me valha, que o Papa também andava por Paris.

Tuesday, September 9, 2008

pequenas notas em jeito de actualização

O meu computador quase morreu há uma semana... aparentemente apareceu-me o blue screen of death. Nada com este nome pode anunciar nada de bom! As lágrimas vieram-me aos olhos, mas o pobre resiste e há-de viver por muitos e bons anos.
Quem já não está entre nós é um dos peixes que comprámos para o gabinete. A culpa será nossa, certamente, e a estratégia de criar um ambiente que desafia os limites biológicos das espécies pode não ter sido a melhor ideia. Menos comida e água menos verde é a promessa a manter.
Desisti parcialmente dos almoços na tea room do departamento. Tenho ido almoçar com amigos portugueses que trabalham na Escola de Veterinária, a Cintia e o André. Tenho que confessar que já não aguento muito mais os almoços que mais parecem velórios e em que toda a gente prefere fazer palavras cruzadas e ler livros entre garfadas. Eu respeito muito estas diferenças culturais, mas eu sou portuguesa. Preciso de falar ao almoço, especialmente se me puder queixar da vida e dizer disparates.
A casa nova continua a ser uma novidade boa, especialmente o facto de estar tão perto do laboratório, ter internet e uma cama grande e confortável. A companhia da Amy também é agradável, excepto quando ela quer ver uma coisa na televisão e eu outra. Concessões e uma boa dose de bom feitio, receita perfeita para não querer matar a colega de casa.
De resto... muita gente nova tem entrado na minha vida. Novos amigos, olhares diferentes sobre a vida que é a mesma.
E amanhã vou para Paris, assistir a uma conferência. Regresso no domingo, por isso au revoir!!!

glasgow capital da música

Recentemente Glasgow foi considerada pela Unesco como centro mundial da música, justo merecimento pelo número espantoso de concertos oferecidos diariamente na cidade, bem como pela qualidade dessa mesma oferta. Aqui o difícil é escolher o que ir ver. À difícil pergunta do estilo "gostas mais do pai ou da mãe", decidi-me por quatro: Tindersticks, Lambchop, Micah P. Hinson e Sigur Rós.

Monday, September 1, 2008

casa que sabe a casa

Hoje acordei na minha cama nova, que bem que soube. E o sol estava a espreitar lá fora - foi um bom despertar.

posso até estar a ficar tontinha

Este filme estará certamente na categoria "pessegada". Mas gostei, muito. E ri. Longe vão os anos adolescentes em que eu dizia mal dos ABBA.